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Destaques

A bodega

Isto é verdadeiro até na bodega: quando o filho do dono visita o pai e começa a dar opinião em tudo, a coisa desanda e o desconforto é geral entre os colaboradores. É mais ou menos o que está acontecendo. Podemos conviver com o eleito capitão, morrendo de vergonha da falta de urbanidade, civilidade, conhecimento e cultura, articulação de pensamentos, da linguagem chula e limitada, entre tantos defeitos notórios, e morrendo de medo da escalada autoritária, desrespeito às instituições, à imprensa, dos movimentos erráticos e incompetentes da diplomacia, do retrocesso incomensurável e punitivo de direitos humanos e sociais, dos negros, dos indígenas, cheios de indignação com a punição de todos os vulneráveis, dos 104 milhões de desvalidos que vivem com meio salário mínimo, dos aposentados, os violados na velhice, com o aumento caudaloso da desigualdade, do sectarismo, do investimento psiquiátrico na polarização, do programa de costumes, tudo isso é muito sério, e estamos convivendo, mas nós, que não estamos dormindo, resistimos na democracia, e criticamos de forma educada (haverá sempre os também sectários aqui, os que gritam com as veias inflamadas, protestam porque adotam a violência como forma de luta e não em defesa das instituições, que o protesto construtivo como luta sistêmica é democrático, mas nós os temos em conta, e pensamos que são o alter ego necessário de qualquer lado político, e aqui são democratas), e apontamos os caminhos, e vamos ao judiciário, e apelamos ao parlamento, e desenhamos todos os dias a utopia da nação pretendida, com temperança e paciência, nós aceitamos as divergências, mas não aceitamos que nos ofendam. E nem que nos tomem por imbecis. Vem a hora em que há de ser prosaico e dizer: chega de filhote na minha bodega. E nem é tão prosaico assim, há simbolismo na situação. Ao acolher ingerências ideológicas e folclóricas dos filhos, transformando as plataformas midiáticas deles em matéria política que terminam de todo modo ocupando os cidadãos e a agenda governamental, o Presidente dá mostra de não saber equilibrar a vida e a história familiar com a liturgia e as exigências do cargo. Isso é ainda mais grave se a história tem rachadinhas e milicianos, o que parece cada dia mais crível. A cassação do zero três demonstraria que as instituições e a sociedade exigem respeito, estão vivas. Poria ordem na bodega.

João Humberto Martorelli é advogado