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A gênese

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI

Adrian Finn, personagem de Julian Barnes em O Sentido de Um Fim (Rocco, 2019), faz interessante análise filosófica da história. A questão é saber se ela se urde por forças gerais ou individuais, ou se tudo se deve ao acaso. Finn argumenta que a imputação de responsabilidades é uma espécie de desculpa, queremos culpar um indivíduo para isentar a todos os outros de culpa, ou culpamos um processo histórico como forma de exonerar os indivíduos, ou tudo é um caos anárquico com as mesmas consequências.

Claro, diz ele, existe, ou existiu, uma cadeia de responsabilidades individuais, mas não uma cadeia tão longa que todo mundo possa simplesmente culpar todo mundo. Esse desejo de atribuir responsabilidade pode ser ainda um reflexo do modo de pensar do historiador, e não uma análise justa do que aconteceu. Quando reflito sobre o início da corrupção no Brasil, poderia simplificar com a colonização e talvez com a chegada da corte, mas seria forçar demais ir assim longe às origens lusitanas. Sendo respeitoso com Portugal, com meu tempo e com meu testemunho, aponto alguns acontecimentos mais próximos e mais relevantes, e os ordeno. Primeiro, a tolerância que os militares, durante a ditadura, dispensaram aos tubarões civis que saquearam o sistema financeiro nacional e diversas estruturas econômicas brasileiras, inclusive a Petrobrás. Se eles não participaram das falcatruas, fecharam os olhos aos desatinos e fizeram a fortuna de muita gente. A impunidade criminal das grandes negociatas do Governo Sarney, dos anões do orçamento e de Collor, cujas malfeitorias tiveram unicamente sanções políticas. A travessia do primeiro para o segundo mandato de FHC, marcada pela compra de votos no legislativo, jamais suficientemente explicada, empanando o brilho do primeiro mandato e pavimentando a chegada do PT ao poder.

 Lula, com seu grande capital político, abandonou a ética na famosa entrevista de 2005, em Paris, defendendo os protagonistas do mensalão. Ali, ele abriu a porteira para todos os delitos, tornando-se responsável pela institucionalização da propina e das fortunas escusas. Incluo, por fim, nesse breve encadeamento, a resposta tíbia do Judiciário, marcada por exuberância punitiva, de um lado, mas também pelo sensacionalismo e politização dos julgamentos do mensalão, do petrolão, pelo comportamento midiático dos ministros, juízes e promotores da Lava-Jato, faltando-lhes circunspeção, própria do julgador, pedagógica para a sociedade.

l João Humberto Martorelli é advogado

Fonte: Jornal do Commercio