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Destaques

A hula

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI

Meu amigo bolsonarista passou férias no Havaí. Naquele paraíso natural, os nativos dançavam a hula desde os primórdios celebrando a beleza da natureza com gestos ondulatórios dos braços e corpo, mas os missionários cristãos que chegaram à ilha combateram fortemente a dança alegando que ela promovia a lascívia. Assim atua aqui o obscurantismo do governo do capitão. Felizmente ou infelizmente, a sequência ininterrupta de diatribes, a virulência das reações à crítica por mais amena, a falta de articulação política e a completa desidratação de suposto projeto econômico capaz de imprimir diretrizes para novas orientações da atividade produtiva do país parecem demonstrar claramente que o mito é um malogro. Os bolsonaristas, finalmente arrependidos, capitulam um a um. Quero dizer que sou solidário, e passo os dias imaginando meios de vingar a legião de amigos enganados. Dispensando-me, porém, de ser magnânimo ou condescendente, e também escapando à arrogância do “eu não disse?”, o que se impõe mesmo agora é a consciência cívica: como travar a melhor discussão para o futuro do país. A ideologia, entendida como um conjunto de ideias pertencentes ou disseminadas por determinado grupo social, refletindo os interesses e compromissos institucionais do grupo, sejam eles religiosos, políticos ou econômicos, deve acomodar-se no debate racional e democrático. Onde, como, em qual plataforma podemos resgatar e reencaminhar a discussão do futuro da nação, antes de novo episódio eleitoral, todos cientes de que não podemos simplesmente apear o capitão do poder, novo impeachment sendo desastroso, e também é desalentador termos que esperar 2022? Na história recente, a mobilização dos coletes amarelos na França deu origem ao grande debate nacional estruturado a partir dos cadernos de queixas e da realização de reuniões promovidas por pessoas do povo com a finalidade de extrair contribuições para diretrizes de políticas, a serem transformadas em iniciativas governamentais e legislativas, uma vertente européia - existiria uma versão macunaímica? Temos que tentar alguma coisa, e deve ser por meio da sociedade civil: aux armes, citoyens, já que o capitão gosta tanto delas. Enquanto isso, vou devaneando a vingança de meus amigos ao pensar nessas reuniões populares, durante as quais poderíamos exibir vídeos dos três filhotes fantasiados de havaianas e dançando hula. Que tal?

l João Humberto Martorelli é advogado