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Destaques

A mulher

A questão feminina chega à modernidade ainda envolta pela atmosfera medieval. Não no âmbito das mulheres, claro, ou somente daquelas que são vítimas acanhadas e tímidas das mesmas estruturas opressoras, e acham, como os homens dominadores, que a biologia dita os princípios. Na verdade, a biologia aponta diferenças físicas, mas o enfoque científico é obviamente limitado - como limitada é a mentalidade da pessoa preconceituosa -, porque a discriminação contra a mulher é a mesma que atinge os negros e os homossexuais, por exemplo.

Noah Harari, em Sapiens, é muito feliz e simples ao resumir o assunto, e precisamos de simplicidade para explicar, às feras atrozes da discriminação e líderes das doutrinas e políticas de preconceito, que considerar nossos limites biológicos seria o mesmo que um locutor de Copa do Mundo descrever o campo de futebol sem narrar o que as pessoas fazem lá dentro.

Assim pensam e agem os opressores: a visão limitada, medíocre, tacanha. As estruturas de opressão criadas ao longo da história da humanidade resistem: o capitalismo e a voraz perseguição do lucro (muitas vezes me sinto deslocado no meio dos liberais, por acharem minhas ideias socialistas e, entre esses, por me considerarem liberal, mas tenho firmes convicções a respeito, sobre as quais falarei outra hora), o patriarcado, a política corrupta e desvestida de ideologia, as instituições organizadoras do poder estatal, o racismo e todas as demais violações de direitos humanos básicos (os direitos humanos não são um conceito matemático, mas fácil de aceitar como o direito à liberdade individual e à procura da felicidade), o controle da história.

Tive um professor de direito constitucional de grande reputação acadêmica, um dos maiores juristas que conheci, que abriu a primeira aula afirmando que as constituições no Brasil são iguais às mulheres: nasceram para serem violadas.

Quis ser engraçado, chamar a atenção, mas se utilizou, para isso, de uma violação grave à dignidade das mulheres. Minha geração, portanto, foi criada sob o signo do preconceito, e assim ele vai de uma geração a outra, sendo fundamental o movimento feminista. O movimento não é das mulheres, é de toda a humanidade. Tomara que a civilização caminhe com ideais progressistas que desarmem a opressão contra as mulheres, os pobres, os negros, e todos os vulneráveis. 8 de Março é, pois, dia da humanidade.

Salve!

● João Humberto Martorelli é advogado