pt / en

Destaques

A previdência

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI

A previdência está quebrada, e precisamos fazer alguma coisa, não existe a menor dúvida: não conseguimos arrecadar, a população está envelhecendo, são números. Aliás, Fernando Henrique reformou a previdência, Lula reformou a previdência, Temer elaborou proposta, há muito tempo a questão entrou na agenda do país.

Ainda não conseguimos, contudo, travar debate saudável, à margem das ideologias e das paixões. Os defensores da reforma utilizam o argumento ad terrorem de que o país vai quebrar se não ocorrer a reforma, que vem com número específico de solvabilidade pátria, pois, se for desidratada para baixo de 1 trilhão de reais, acaba-se o país, fecham-se as fronteiras e a linha de miséria se instala.

Os opositores invocam a maldade com os velhinhos, além de se armarem com os argumentos morais de sempre. Dou minha visão. A previdência não é o único problema estrutural do país, e sua reforma não é panaceia, remanescendo questões tão graves quanto ela, a exemplo da necessidade das reformas política e fiscal, a brutal e crescente desigualdade da renda, a crise na educação, a tristeza do sistema de saúde, a falta de segurança decorrente dos níveis de miséria absoluta nos grandes bolsões favelados, cada vez mais frequentes.

A verdade é que o pensamento liberal do governo, que nem sabemos bem se é mesmo o pensamento do governo, ou se de apenas parte dele, cravou na mídia a imperiosidade da reforma para sobrevivência da nação. Penso eu que essa bandeira não passa de sinalização para investidores estrangeiros, afeitos a acenos de rigor fiscal para depositarem seus dinheiros e investimentos, de sorte que, ao darmos relevância estratégica à reforma, priorizando-a entre os problemas da nação, estamos cuidando do dinheiro deles, basicamente. Também penso que não está bem explicada, adentrando agora o mérito da reforma, a escolha do sistema de capitalização no lugar do tradicional sistema de repartição dos riscos entre empresas, trabalhadores e Estado.

Parece a toda evidência que ela favorece unicamente o sistema bancário, por sinal o mais beneficiado em todas as grandes reformas do país, como sempre. São muitos os questionamentos. Esperemos que as ideologias e paixões não se transbordem para o Parlamento (vã esperança) e que a matéria tenha tratamento de questão social.

l João Humberto Martorelli é advogado

Fonte: Jornal do Commercio