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Destaques

A sátira

A sátira é forma de expressão artística conhecida desde a antiguidade clássica, caracterizando-se, na definição de Houaiss, como uma composição livre e irônica contra instituições, costumes e ideias da época, e não se limita à literatura, podendo manifestar- se, além da prosa e da poesia, na música, no teatro, no cinema e, mais recentemente, nas produções televisivas. A boa sátira caracteriza-se pela provocação do riso, efeito da alegria que propicia, às vezes, o autor rindo de si mesmo, pela direção apontada para tipos bem definidos, o capitalista ambicioso, o carola, o homenzinho esperto, o avarento, o hipocondríaco, o banqueiro desonesto, o político de esquerda, o político de direita, ou contra símbolos e organizações da sociedade.

Esse último tipo de sátira exige maestria do compositor, porque, uma vez imperfeita, descamba para a zombaria e a gargalhada fica despropositada: estreiteza de espírito, um dos sentimentos mais negativos que permeiam a humanidade nos dias de hoje. Pascal, que fez famosas sátiras aos jesuítas, se comprazia em rir dos livros e doutrinas, ou dos "estultos que parolam erroneamente sobre as coisas santas", mas preservando o que é sagrado. O riso e a moral, o riso e a religião, o riso e os costumes são temas que podem ser abordados sempre em boas sátiras, mas é necessário que contenham, além da ironia ou da ridicularização, uma mensagem ou proposta, sob pena de serem vulgares e grosseiras, não passando, assim, de pura agressão, desprezo, maldade ou, no fim, ausência de espírito e competência artística. O especial de Natal do Porta dos Fundos, com ressalva de minha irreligiosidade, é obra paupérrima, só contendo, de fato, agressão, sem apontar caminhos de ética, de moral ou de reparação de costumes. De revés, é homofóbico, porque empresta de forma dissimulada caráter negativo à homossexualidade atribuída a Cristo, além de tentar ridicularizar o adultério, sequer é original. No entanto, erram todos aqueles que pretendem ou pretenderam a censura do arremedo de sátira. Depois da vida, a liberdade é o bem mais supremo conquistado pelo homem, e as diferenças de opinião, por mais pusilânimes as contrárias, não podem macular a conquista. Roberto Romano, em excelente estudo sobre a sátira em Voltaire, diz que, quando os jesuítas obtiveram ordem do parlamento para incinerar as Cartas Provinciais de Pascal, não se tornaram menos ridículos, mas se tornaram mais odiosos.

● João Humberto Martorelli é advogado