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Destaques

A tristeza

Quando será o momento de parar de contabilizar as perdas? Provavelmente, nunca. Por estes dias, mais de 10 milhões de doentes, mais de quinhentas mil mortes, e contando.

Mas não é verdade que a peste negra levou de 75 a 200 milhões de pessoas, a gripe espanhola entre 50 e 100 milhões, e tantas outras doenças, a varíola, a AIDS, o ebola, outros milhões?

Tantas pandemias e eu, nós, apenas com um fiapo de vida por viver, e contando. De que nos adianta a ilação de Harari, para quem as mortes e a tremenda fragilidade das pandemias atuais decorrem mais de indesculpáveis falhas humanas do que de calamidades naturais?. Ninguém há de discordar disso ante aparvalhados dirigentes, líderes despreparados, egoístas, ignorantes, incultos. Ainda assim, de que nos serve, se o que fazemos agora é contabilizar as perdas?

Parar de senti-las, eis talvez o que devemos fazer: ir a alguma colina que se funda na paisagem e nos recorde o sentido da beleza e da criação da vida durante o trânsito incessante da peste. Que momento inquietante para todos os que perdemos. Perdemos pessoas, amores, bens, perdemos a inofensiva ordem do cotidiano, gestos, ações e sentimentos que davam algum sentido à insignificância, à própria fé que não entendíamos, à hora do despertar.

E recolhemos, em contrapartida, a contabilidade macabra das perdas.

Não vai parar, mas precisamos parar: é imperioso não perder a visão de beleza da vida, que jaz na tristeza imensa e profunda de ser. Alguns chamam de hora do juízo final, como se o juízo final fosse uma grande assembleia em que todos os homens, todas as almas reunidas assistissem ao triunfo da verdade, revelada como um castigo coletivo, a poeira negra e compacta, insuscetível aos apelos da fé e à própria crença, sorvendo agressivamente cada pedaço de matéria, cada membro de corpo animal, cada perna, cada braço, cada olho, o sangue mítico escorrendo da boca torta de um enorme morcego. Essa é a contagem macabra, que nos remete à contabilidade das perdas em seu fluxo incessante, como o sentido da vida na perda da vida, quantidade de mortos, doentes, juízo final, isolamento, regra, solução. Tem hora que a dor só faz sentido com a tristeza, aí se consegue entender a perda. A tristeza da vida por um fiapo, a que poderia ter sido e que não foi, para lembrar Bandeira, mais que isso, a tristeza em estado puro de Virginia Woolf: pura, despojada do corpo, despojada de toda paixão, saindo para o mundo, solitária, irrespondida. Entre os vivos e os mortos.

João Humberto Martorelli é advogado