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Destaques

A vida do advogado 2

João Humberto Martorelli

Terminei o ano perplexo com aquele jovem estudante que pensava na advocacia como vida fácil, depois de deplorar o tempo em que estudara na faculdade. Estava pensando nisso quando me lembrei de excelente texto de Walter Bennett no tema, que passo a reproduzir. Segundo ele, diversas histórias orientadoras,
que diziam aos advogados quem eles eram, davam sua identidade e a da sociedade a que serviam. Algumas dessas narrativas eram favoráveis à profissão, com o advogado no papel de herói, campeão e construtor da comunidade. Outras, pelo menos em uma primeira impressão, eram decididamente derrogatórias. As histórias favoráveis sobre advogados cristalizavam-se em ideia de profissionalismo e bom advogado. As desfavoráveis cristalizavam-se em histórias arquetípicas envolvendo tiranos, trapaceiros e charlatões. Em uma profissão acostumada a comparar histórias com provas factuais, somos tentados a perguntar se algum desses ideais e arquétipos (e, na verdade, as histórias que lhes davam fundamento) eram factualmente corretos. Isso equivale a perguntar se houve realmente um rei galês chamado Artur e uma Távola Redonda. Mas o importante é que as histórias sobre advogados circulam no meio estudantil, no meio profissional e na sociedade em geral, definindo o que é ser um bom advogado ou um mau advogado. E palavras e atitudes como o daquele jovem que afirmava interessar-se
pela advocacia para pegar um primeiro processinho e ficar rico contribuem decisivamente para cristalizar a ideia do mau advogado, a dizer, todo advogado
é mau, desenvolvendo certos traços de caráter que o incompatibilizam com a essência ética. O advogado deixou de ser integrante de uma elite profissional
altamente qualificada e de princípios, cuja função básica era proteger a virtude pública, para se tornar o profissional da esperteza, da tirania, da charlatanice.
Antigamente, no meu tempo, o estudante de direito almejava, em primeiro lugar, servir à sociedade, à coisa pública, em segundo lugar, atender bem os clientes,
desenvolvendo especialidades que o mercado reclamava, e, por último, ganhar dinheiro. Hoje, a última meta tornou-se a prioritária desde o convite da formatura. É óbvio que a Ordem dos Advogados tem uma urgente e inadiável missão de recuperar o conceito da classe, começando por impedir que homens sem ética ingressem nos quadros da entidade e pratiquem a profissão.

Fonte: Jornal do Commercio