pt / en

Destaques

A vida do advogado

João Humberto Martorelli

"Passados seis fucking longos anos e acabou essa desgraça. (...) Aos meus inimigos, gostaria de dizer que acabou, estou formado e pronto para meter o famoso processinho”. Parece mentira, mas a frase consta de um convite de formatura de um estudante de direito, que finaliza o texto dizendo que não nasceu para ser doutor, mas para ser rico. Coisas do ensino jurídico no Brasil, cujo passado é recheado de Ruis, Nabucos, Beviláquas, Tobias, Pontes e Teixeiras, e hoje, infelizmente, tem hordas de selvagens sem ética, em estágio pré-civilizatório, colando grau nas faculdades de Direito, pensando apenas no primeiro milhão, no primeiro golpe, no primeiro suborno. Sair da faculdade é deixar o estudo árduo para ingressar na vida fácil. Assim que pensam eles a advocacia. No entanto a vida do advogado é muito diferente. Começa a trabalhar às 6h em casa e às 8h já está no escritório, verificando a correspondência, os e-mails, respondendo a eles, enquanto o telefone o interrompe a todo instante. E, sem parar a correspondência, vai falando ao telefone, até que, em seguida, às 9h, os clientes começam a chegar, e aí começa a ouvir, é preciso deixar o cliente falar, por medo de não conhecer um lance útil, um argumento probatório que talvez surjam. Depois de acompanhar à porta o último cliente, mal tem tempo de engolir sua frugal refeição e precisa ir ao foro. E sabemos quão impossível está o trânsito, estresse, dúvida se chegará ou não no horário da audiência. Em seguida, sustentações orais, despachos com espera interminável, sai do foro, vai à Justiça do Trabalho, à Justiça Federal, e ao fim do dia, talvez tenha que voltar a um ou outro Palácio de Justiça para um despacho tardio. E assim até a hora do jantar, e depois do jantar, quando ele encontrará, enfim, algum tempo para dar conta do trabalho mais urgente. E o domingo? É justamente o dia em que o advogado mais trabalha, pois está tudo mais tranquilo. Assim era a advocacia no fim do século XIX, quando Henri Robert a descreveu, tal como transcrevi acima, assim é hoje, sempre será. Mas não há, proclama Robert, profissão mais bela nem apaixonante, um estado em que o mérito e a glória são inseparáveis. Por tudo isso, meu garoto, a advocacia pede-lhe que renuncie à advocacia, não há vocação na simples ambição de dinheiro. Que fique em paz, e tenhamos todos um alegre Natal e um ano novo próspero, e sempre ético.