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Destaques

As mucamas

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI


Meus pais frequentavam o restaurante Mucamas. Era ponto da alta sociedade, a dizer, dos novos ricos (assim é Recife), e tinha boa culinária, mas o destaque mesmo era que os serviços ficavam a cargo de jovens vestidas de mucamas, reproduzindo de caso pensado a atmosfera colonial e, claro, escravocrata. Naquela época, as pessoas não pensavam no forte significado negativo do simbolismo, no máximo, achavam pitoresco. Já ocorria ali, deitando raízes até hoje, o fenômeno da naturalização, a comunidade percebendo o negro no âmbito de fantasiosa democracia racial, em que a raça negra é vista como adereço peculiar dos acontecimentos, com permissão para existir dentro de limites, sem os plenos direitos de qualquer cidadão, sem a igualdade básica. As festas religiosas, por exemplo, transformam-se em celebrações carnavalescas, repletas de turistas que entram no clima, mas não na essência, o negro é instrumento do momento de euforia. A dizer, o branco mais igual do Brasil é apenas condescendente. De outro lado, isso revela que o negro não tem a visibilidade do branco, na medida em que o processo de naturalização ocorre para lhe dar espaço nos contextos recreativos e até profanos, de sorte que a aparição do negro na sociedade brasileira, à parte a enganação do conceito de democracia racial, ocorre sem reconhecimento da sua igualdade como ser humano. Djamila Ribeiro, comentando a festa de Iemanjá do último dia 2 de fevereiro, foi bastante feliz e direta, como sempre: 'O Brasil tem essa questão de enaltecer a cultura negra, mas demoniza sua raízes. Você não vê gente usando quipás no Carnaval, mas as pessoas se sentem no direito de usar colar sagrado'. Essas palavras sintetizam bastante bem o conceito de naturalização. O fato é que a sociedade brasileira jamais esteve tão atenta a esse processo, é certo que houve avanços desde a minha infância e o restaurante. Ainda assim, Donata Meirelles, diretora exonerada da revista Vogue, bem recentemente, posou para a foto do aniversário de 50 anos sentada em uma cadeira ladeada por baianas negras vestidas de branco. Sem querer julgar o foro íntimo da aniversariante, julgamento que poderia ir da simples apreciação da beleza à condenação por viés claro de naturalização, não pude deixar de ver nas baianas as mesmas mucamas que me impressionavam, criança, no restaurante. Temos muito caminho na defesa da igualdade e contra o racismo.

João Humberto Martorelli é advogado

Fonte: Jornal do Commercio.