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Caneta azul

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI 

A Constituição de 88, em mudança de rumos inesperada, deixou um presidencialismo forte, mitigado com poderes controladores da atuação do Executivo. Na verdade, caminhávamos na direção do parlamentarismo, quando, de repente, o tucanato virou, o MDB virou, alguém falou dos perigos. O fato é que o parlamentarismo iria melhor nos dias de hoje, deixássemos falar um homem perturbado, com distúrbios psiquiátricos abundantes à mostra, colocando em risco a saúde da população, com sua paranoia turcomênica, e teríamos, ainda assim, um executivo fluindo com o parlamento responsável por seus atos.

Ah, teríamos a velha política loteando cargos e o parlamento cheio de roedores nos ossos do combalido estado brasileiro? Talvez, mas com regime de liberdade de imprensa, acesso via lei da informação, debates públicos, controles da sociedade civil, enfim, todos os mecanismos de controle democrático.

O que ninguém controla, e pode ser irreversivelmente danoso para o país, é a caneta azul sendo mostrada assim, às claras, como se fora ameaça a tudo o que ele não gosta. Pior que é. Mas se ele ficasse na dancinha da caneta azul... Não fica, tem personalidade ciclotímica, o louco cínico, que um dia sobe na caçamba do caminhão, tosse (?!), apoia atos contra a democracia, e, no outro dia, emulando Louis XIV, que provavelmente não sabe quem é e diria que é blend de uísque ou cachaça, se perguntado, diz, a pretexto de defender a democracia, que o Estado é ele, pior, a Constituição sou eu!

Está muito difícil de suportar, de compreender, de aceitar. Na minha opinião, a imprensa está cumprindo o papel dela, mas de forma incompleta, e até com alguma incompetência analítica, explorando a conduta exótica, quando precisamos de posturas mais afirmativas, de rumos, de liderança.

O PR está banalizando a política porque não sabe fazer outra coisa, não sabe ser líder, não sabe o que significa o jogo de expectativas, não sabe lidar com elas, é um despreparado para o cargo. Fernando Henrique Cardoso, em seus Diários da Presidência, define bem o papel do líder: "No mundo de hoje é preciso que o líder, ou os líderes, ou aqueles que articulam, sejam capazes de problematizar e de interpelar, para constituir um espaço político., porque as classes ou os grupos em si mesmos não têm essa capacidade de atuação. A liderança, essa sim, tem essa função, que é cultural, moral, pedagógica e política ao mesmo tempo.

Contudo ela enfrenta interesses, não se trata simplesmente de negociar, chegar a um pedacinho para cada um: tem que enfrentar interesses".