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Desmistificando a Ilha de Deus

José Vitor Rabelo, de Martorelli Advogados

O que é uma ilha? Território rodeado de água em sua totalidade. Esta é a principal característica das ilhas do planeta, de qualquer tamanho e outras peculiaridades. Com a Ilha de Deus (entrando à direita na rua da estação metrô/Imbiribeira, altura do nº 945 da Imbiribeira) é o mesmo. Uma ilha, cercada pelos rios Pina, Beberibe, Tejipió e Jordão. Interligada ao Recife por uma ponte, batizada por Vitória das Mulheres, com cerca de 130 metros de comprimento, por onde só passa um carro por vez, em sentidos contrários, há recuos onde um carro entra e o outro passa. Ponte inteligente para veículos de passeio, exceto vans tipo sprinter, não cabem nela. Portanto, indo em um veículo desses as pessoas deixam-no antes e atravessam a ponte a pé. Eu mesmo já atravessei a pé.

Em 2007 Eduardo Campos elegeu-se governador e elegeu a Ilha de Deus o primeiro projeto de urbanização de sua gestão. Saíram palafitas, entraram casas de alvenaria. Veio a ponte já dita. Muitos moradores tomaram conhecimento do saneamento básico. Houve calçamento de ruas, criação de muro de arrimo, evitando a entrada de água com a maré alta. A Ilha, que era só ruas de terras que, com chuva e maré, eram intransitáveis, e casas invadidas pela água, não sofre mais. Com a crise financeira que tomou conta dos três governos, houve certa descontinuidade do projeto. Mas lá tem escola, posto de saúde, casa de artesanato, casa de remo. Essa a parte material da Ilha. Vamos às pessoas.

As pescadoras e as mulheres que descascam sururu e marisco vivem um dilema. A creche foi desmanchada e a que a substituiria ficou apenas na base. As pescadoras, ou pescam, ou tomam conta dos filhos, ou levam os filhos para beira do rio enquanto limpam sururu. Já vi a matriarca, três filhas, limpando sururu, numa tenda coberta com um plástico preto e, ao fundo, num canto, três carrinhos, com bebês, alguns até recém-nascidos. Dá uma pena, principalmente pelo sol forte.

Conheci a Ilha em agosto de 2016 e, em quatro meses, fui lá 22 vezes, seja para levar pessoas para ir comer mariscada, para ajudar na festa do dia das crianças, para recepcionar o pessoal que faz o passeio de catamarã, por aniversário de algum ilhéu conhecido, para me despedir de intercambistas com quem fiz amizade (na Ilha, ONG Saber Viver, tem um hostel com mais de 20 leitos que abriga estudantes universitários do Brasil e do mundo), já fui só para desejar uma feliz entrada de ano novo. Em outras palavras, a Ilha hoje é outra, totalmente diferente daquela conhecida até 2007. Há muito por fazer, mas estamos tentando progredir. Quando vou à Ilha, ando por alguns quarteirões e tenho chance de dar, no mínimo 60 “bons dias” e outros 60 “ois” para crianças. Não conheço todas as pessoas da Ilhajá que são mais de 2000 adultos, jovens e adolescentes e mais de 300 crianças, mas sei que uma grande maioria sabe quem sou eu, até para me chamarem de “o cabeça branca” como os índios chamavam o repórter Francisco José. A Ilha é do bem e faz bem!

Fonte: Folha de Pernambuco