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Feliz Ano Novo

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI

Eu, que não acredito em Deus, prometo que em 2019 passarei a acreditar.

Dedico esta coluna a todos os que sofreram violência e injustiça em 2018. Poderia generalizar com as minorias de toda ordem, mas seria falta de sensibilidade não começar com um beijo em Marielle Franco, e a certeza de que ela fica como símbolo da luta por igualdade e justiça social, mas também como vítima da intolerância, representada por aqueles truculentos filhos e seguidores que arrancaram a placa com seu nome das ruas do Rio de Janeiro. Que eles tenham o perdão de Deus, o meu, jamais.

Tenho compaixão suficiente no coração para antecipar os que se destinam ao inferno e ao paraíso. Penso delicadamente em todas as mulheres que apanharam de seus maridos, namorados, amantes, e ainda não tiveram a coragem de denunciar. Nos pobres, miseráveis, doentes, condenados à solidão nas ruas das grandes metrópoles, servindo de barganha política para, logo em seguida, voltarem às calçadas sujas. No olhar triste e cabisbaixo da criança negra em sala de aula. Naqueles que sofrem por se sentirem em outro corpo, e seriam felizes se as diferenças fossem reconhecidas e aceitas. Nos quilombolas, indígenas, comunidades rejeitadas, em todos os expatriados do mundo, párias, na criança que morreu por não ter leite, carne, aquela criança, meu Deus, morreu de fome. Os párias, refugiados, que buscam um lugar para ficar e trabalhar, apenas um abrigo, percorrem milhares de quilômetros por mar, terra, para encontrar a arrogância. Este homem do muro é não apenas insensível, egoista, é um imbecil, um grande imbecil. São primos os idiotas da volencia e das armas, lambem as botas uns dos outros.

Contra toda a injustiça, eu, que não acredito em Deus, prometo que em 2019 passarei a acreditar, desde que se reparem todos os males, e a fúria dos tsunamis se dirija ao homem mau, aos grandes homens maus que apequenam a humanidade, e que eles sejam extirpados da face da Terra. Não há mais espaço para perdão. E, se houver ainda compaixão, oh vida, guarde para este mirrado coração, que de tanto sofrer de amor perdeu todas as esperanças. Não tenho esperanças para 2019, mas receba, leitor, meu respeito por todas as suas inocentes esperanças. Feliz Ano Novo!

João Humberto Martorelli é advogado