pt / en

Destaques

O aniversário

Clarice nasceu no dia 10 de dezembro e, na mesma data, minha mãe morreu. Esses dois acontecimentos extraordinários são coincidentes apenas na data? Não sei, sei que me ocorre, enquanto uso da pena, pensar em ambos assim, na mesma folha de papel, no mesmo plano sentimental, no mesmo compartimento caótico em que minha vida se transformou desde que eles aconteceram, se bem que Clarice nasceu há 100 anos e minha mãe morreu há 24, mas eu os vivi, esses anos todos, flutuando sobre as espumas como uma garrafa jogada ao mar na busca desesperada de entregar uma mensagem. 


A mulher inquieta, áspera e desesperançada, a mulher que tem amor, mas não sabe usar o amor, que espera o inesperado, que aceita o pior e tem medo, covarde, cortante, só tem o que é e não entende, tem medo de entender, o material do mundo a assusta, com seus planetas e baratas, e os pombos enviados por Deus para comer arroz cru nas janelas que ela, propositadamente, deixava abertas e eles entravam no quarto, o arrulho imoral, a mulher cínica aprende o cinismo com o homem, como pode a mulher mentir, ocultar, usar pretextos, negar a verdade ao homem, a felicidade clandestina, a dor no corpo suportando a feminilidade de todas as mulheres, terrível não ter uma pessoa para conversar, deitar na cama com a solidão, lamentava muito ter nascido da incontinência de seu pai e de sua mãe, sentia pudor deles não terem tido pudor, fecundação é a união de dois elementos de geração - masculino e feminino - da qual resulta o fruto fértil. 

"E plantou Javé Deus um jardim no Éden que fica no Oriente e colocou nele o homem que formara" (Gen. 11-8), a dolência das flores, o suco doce que muitas contêm e que os insetos buscam com avidez, a rosa que é uma flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de se ter dado, as árvores escuras do jardim vigiando secretamente o silêncio, eu me acostumo mas não amanso, eu me dou melhor com bicho do que com gente, todas palavras saídas do vórtice carnal de Clarice, do coração selvagem, de alguma forma teriam nascido também na vida forjada da nordestina, na mulher forte, abandonada, que nunca inaugurou, como Clarice, novos caminhos, deixando o passado em uma trouxa podre que se esquecia mas que, ao contrário, carregava a trouxa podre em seu corpo, em sua alma, para sempre, até se encantar.

Por isso, os dois aniversários perto do Natal, a vida e a morte, as datas de reencontro. Que sentido tem esta crônica? Dou a palavra novamente a Clarice: "Por que escrevo? Antes de tudo porque captei o espírito da língua e assim às vezes a forma é que faz conteúdo.

Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de força maior, como se diz nos requerimentos oficiais, por força de lei". Feliz Natal, leitor!

João Humberto Martorelli, advogado