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O cipó

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI

Quando pequeno, apanhei de cipó de goiabeira, mas esse não veio com Jesus, doeu mesmo. Falarei disso outra hora. Hoje quero contar que, em final de outubro, participei de uma mesa de debates sobre diversidade na Fenalaw, evento promovido por e para escritórios de advocacia. O tema foi diversidade, minorias discriminadas, mulheres, LGBT, negros.

Chamou a atenção, em especial, a contribuição de José Vicente, Reitor da Fundação Zumbi dos Palmares, no sentido de que, na área pública governamental, o assunto caminha, pois a sociedade estabeleceu um sistema de cotas de acesso às universidades, plataforma que, se não era a ideal, representou assim mesmo um avanço no combate ao racismo institucional, assim entendido aquele que atinge, envolve e se instala nas instituições públicas e privadas a partir da seletividade racial, operando “de forma estrutural na contemporaneidade, demarcando de maneira inequívoca espaços e privilégios e solapando a plenitude do conceito de dignidade da população negra” (cf. definição do MPPE).

Não adianta negar, a despeito da afável fantasia da miscigenação de Gilberto Freyre, o Brasil é um país racista. Temos muito a fazer e, se a área pública obteve alguns avanços, pouco ou quase nada se fez no mundo corporativo. O que se fez até foi bonito, contudo: o programa da Bayer, concebido e implantado por Teo Van der Loo, que teve repercussões e acolhida, tímida embora, no mundo empresarial, o projeto Incluir Direito, do CESA – Centro de Estudos das Sociedades de Advogados, corporações multinacionais como o Google estabeleceram como regra a contratação de serviços e fornecedores, inclusive advogados, somente entre aqueles com práticas efetivas de inclusão, e, em nosso pequeno mundo corporativo, alguns escritórios de advocacia abraçaram a causa. Mas ainda é muito pouco, para compensar a espoliação sofrida antes e depois da Lei Áurea, porque, embora os brasileiros sejamos 55% afrodescendentes, apenas 4,7% ocupam cargos executivos nas empresas.

Em 2019, temo eu, isso pode piorar. Há franca antipatia no ambiente social contra as minorias. É importante assim que o espírito de Natal alie compaixão, muita compaixão, a combatividade e firmeza no ano que se avizinha, e que as empresas se engajem nos movimentos sociais e apoiem as instituições públicas em favor da inclusão, porque vem, ai de nós, muita, muita surra de cipó de goiabeira. Feliz Natal, leitor.

João Humberto Martorelli é advogado

Fonte: Jornal do Commercio