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Destaques

O pavãozinho

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI

Antes de entrar na temática institucional da coluna de hoje, gostaria de dizer algumas palavras sobre a personalidade do pavãozinho de cauda exuberante e fala de cordas vocais com tons agudos, quase estridentes. Os pavões estão sempre ocupados com suas penas, obcecados por impressionar (no mundo animal, as fêmeas). Há neles um lado praticamente despercebido: as penas menos chamativas são usadas como camuflagem para a proteção do ninho contra predadores, as aves críticas, de cores diferentes, cuja moral lhes seja perversa. Em sua trilha egocêntrica nietzschiana, consideram-se acima do bem e do mal, e têm como normais todas as transgressões que cometem, embora se considerem aptos a julgar as transgressões dos outros.

Abandonam as famílias por voos mais altos justificando o aperfeiçoamento da tarefa primitiva, quando, na verdade, procuram mais loas a sua beleza. Na Índia, o pavão já foi considerado ave sagrada, e o Rei Salomão, precursor do Messias, prezava esta ave mais que ao ouro e a prata, embora hoje, ela, apesar de ainda ter muitos devotos, comece a perder a mística, predominando a vaidade em detrimento da beleza. Assim, ao lado das virtudes, da cultura, da inteligência, do doutorado, encontra-se esse destruidor e sutil atributo da alma humana, a vaidade, pronta para cobrar seu preço a qualquer tempo, ao sabor do acaso ou dos inimigos. Pois bem. Não quero disputar cordão de pastoril entre vermelho e azul, muita coisa precisa ainda de esclarecimentos, todavia, se é verdade que conversas entre juízes e promotores podem ser de respeitosa proximidade, sempre há de se levar em conta principalmente esse toque de respeito, de deferência, que não é somente pessoal, é reverência à justiça de que todos, juízes, advogados e promotores são parte integrante, significando que, ainda quando exista maior intimidade pessoal, ela deve dar lugar à liturgia, o ofício em papel timbrado, ou o e-mail dentro do sistema, prevalecendo sobre o zap informal. Ainda mais quando se dirige a comunicação à denúncia de outrem, ou à concepção de um processo que haverá de resultar em perseguição criminal a ser decidida pelo denunciante. O pavãozinho não quer justiça, só quer aplausos. A coluna encerra homenageando a grande escritora portuguesa, recentemente falecida, Agustina Bessa-Luís: “Mas o que são os vaidosos senão os que temem a sua nudez? Os que evitam o retrato da alma para não lhes descobrir tormento e debilidade?”.

Fonte: Jornal do Commercio