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O sociopata

De Celso Mori, na minha opinião, o mais completo advogado do Brasil de todos os tempos, recebi texto endereçado a um grupo de amigos. A questão central é: por que não suportamos o Presidente Bolsonaro? As palavras a seguir são de Celso. Eu poderia resumir: porque ele é desumano. Mas essa resposta não seria inteiramente correta. Exprime um sentimento, e exprime a verdade semântica, mas não exprime a verdade filosófica. O mais correto é dizer que não suportamos Bolsonaro porque ele é um sociopata. Não é um xingamento. É uma constatação analítica. 

É a necessidade, imposta pela maturidade, de aceitar a verdade como ela é. O ponto relevante é que sociopatas não deveriam ser governantes de países. Na vida, passamos nos equilibrando entre a liberdade individual e a responsabilidade coletiva. Alguns seres humanos, entretanto, pensam apenas em si, e acham que, dentro do nós, os outros nasceram para servi-los. O sociopata, porque não tem consideração pelo outro que não considere parte de si mesmo, nunca se arrepende nem tem sentimento de culpa. O sociopata é contra a lei. A lei é uma expressão da vontade coletiva que se impõe ao eu. Para o sociopata isso é intolerável. 

No caso de Bolsonaro, essa incompatibilidade com o Estado de Direito é tão fundamentalmente arraigada nas convicções e no estilo de vida que ele, e alguns de seus familiares, prestaram repetidas homenagens a torturadores, ex-policiais, corruptos e assassinos expulsos das suas respectivas corporações, exaltando a atividade de milícia. Poucas coisas podem ser tão disruptivas do Estado de Direito quanto o estado paralelo constituído e conduzido pelas milícias. 

O sociopata, por lhe faltarem empatia e responsabilidade social, é capaz de ser profunda e continuamente desonesto, sem precisar admitir isso para si mesmo. Ao longo da vida, Bolsonaro e sua família empregaram 112 parentes e ou amigos nos respectivos gabinetes, amealhando mais de R$62 milhões de salários ao longo das longas carreiras. Mas não é o valor do dinheiro que caracteriza o sociopata. É a atitude. A mesma atitude que permite juntar-se, quando lhe convém, a qualquer político que concorde em dizer que ele deve estar acima de tudo e de todos. 

O sociopata é cínico. Se o Supremo Tribunal Federal diz que a saúde pública é responsabilidade da União, dos Estados e dos Municípios, o sociopata dirá que nada fez para preservar a saúde púbica porque o Supremo não deixou. No caso, o cinismo decorre da característica fundamental da sociopatia no exercício do poder: ou acontece do jeito que eu quero, ou não deixo acontecer. Por fi m, há na sociopatia um elemento muito, mas muito mais grave: o sociopata não se importa com a vida dos outros. Nem com uma, nem mesmo quando elas são mais de 200 mil. E contando.