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Destaques

O tango

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI

Muita calma nesta hora. Os sucessivos desdobramentos históricos colocaram o país na situação peculiar de ter todas as instituições questionadas, talvez pelo motivo central de serem muito frágeis ainda em nosso verde avanço democrático, mas o fato é que, fortes ou frágeis, o teste é para valer. O Presidente do Executivo é muito ruim, obviamente não tem competência para ocupar o cargo, avaliação que se reflete nas pesquisas apontando substancial e rápida perda de popularidade, no enredo de uma agenda de costumes anacrônica, na tutela de filhos inconsequentes e de um suposto filósofo néscio e pornográfico, no aparelhamento crescente dos militares, enquanto a economia arde, o desemprego cresce, o investimento reflui, a política demandando objetividade que parece nunca vai sair dali. O Parlamento naturalmente cria expectativas de influenciar o destino da nação, à cata de cargos, emendas, benefícios, tudo sob o manto conveniente e amplo de harmonia entre os poderes, sendo, porém, muito claro que, a despeito da substancial mudança de protagonistas decorrente da última eleição, os perfis remanescem nas cadeiras, a garganta aberta à espera da transformação da nova política em manancial de auxílios de fazer corar. O Judiciário e o Ministério Público, há muito, deixaram de buscar justiça, antes, procuram muitos de seus membros – não todos, mas uma quantidade importante -, as luzes do palco.

Ministrar justiça e acusar tornaram-se a demonstração pública das vaidades mal contidas, das farpas pessoais entre os integrantes das cortes, dos fins sub-reptícios, dos meios ilícitos, do corporativismo, das decisões dissimuladas, dos libelos políticos, de má política. Fazer o quê? Primeiro, refletir que nós construímos este país: fomos nós, com nossas escolhas irrefletidas, irracionais, festivas, emocionais, baseadas sobretudo no ódio, que nos deixamos ficar entre Haddad e Bolsonaro, elegemos deputados e senadores iguais, embora disfarçados, e o sabíamos, fizemos loas a Sergio Moro, enaltecemos os rapazes de Curitiba, nos comprazemos a cada prisão, e repudiamos cada livramento, sem nos perpassar, por um segundo, a racionalidade indispensável. Deixamos que a ágora e a praça sucumbissem ante a imbecilidade das redes. Segundo, tocar um tango argentino, ou entrar no avião para Lisboa. Calmamente. Admitindo que não tem mais jeito.

João Humberto Martorelli é advogado

Fonte: Jornal do Commercio.