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Destaques

O tempo

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI

Antes, era a modorra: as casas contemplavam a gente, as ruas se dobravam docilmente aos lampiões, enquanto o mar simulava a eternidade, e o céu azul era apenas mudo e azul, ou escuro, dependendo da hora do dia ou da noite; e tínhamos sempre uma mulher, idealizada, a bela, cujo rosto indizível nos contemplava na hora de dormir, suspenso por tiaras no espaço.

Entramos livres na idade seguinte, tínhamos tempo para, após a aula, e antes da hora do almoço, exibir para a moça uma ou outra palavra, poesia aos borbotões, enquanto mordiscávamos um biscoito cozido pelas freiras da igreja de Nossa Senhora do Monte, porque Olinda era ali pertinho, e um beijo e promessas sobravam para o futuro indefinido e sem limites, o espírito vagando sobranceiro e despreocupado. Pois tínhamos essa janela para o namoro, e ainda para o cotidiano prosaico, bife de molho, feijão, farinha, e muito ócio antes do estudo, do estágio, do trabalho, leituras de filosofia, de história, a fundamental e básica distinção entre ética e estética, o desperdício com o Reader`s Digest que os pais assinavam, mas no banheiro, a ducha do meio do dia, a pontualidade na repartição que era uma exigência, mas também uma virtude decorrente da lenta passagem das horas, do trânsito fácil, da avenida larga, o ônibus elétrico, o ajardinamento da paisagem, e tinha mais, nos fins de semana, a visita indispensável aos avós, familiares, parecia que a tribo se reunia em torno do fogo, mas não éramos índios, ou éramos, remontávamos à origem e nos perdíamos no transe das palavras calmas, de histórias de antepassados, as pálpebras, aos domingos, se fechavam pesadas, o hábito escalando a vida, o hábito sendo a própria vida, mas com gosto bom, a vida sentia bem, tinha odor, pele, espaços, tudo era perto, o tempo era condescendente conosco, os por enquanto jovens, os desavisados, deuses gregos, trovadores, existencialistas, esquerdistas, humanistas, musicalistas, atemporais. Uma manhã, contudo, sem que o percebesse, enorme edifício tomara o lugar da Casa Navio, ela deixou de existir, no dia seguinte, os vagões da Rede, que eram casas sob a forma de trem, trem azul, também não integravam a paisagem cotidiana, o mar se tornou revolto, o céu se encheu de riscas de poluição, as ruas cheias, a travessia penosa, o dia passando a arder, urgir, pior, acelerou, perdeu-se, o hábito gotejou sangue. Teu rosto, que agora compreendo, é meu único resto na linha do tempo.

João Humberto Martorelli é advogado

Fonte: Jornal do Commercio.