pt / en

Destaques

Odraude

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI

Chamavam-no assim em virtude da habilidade de falar de trás para frente com rapidez espantosa, aprendida com o tio Augusto Lucena, político, deputado estadual e federal com passagens no cargo de Prefeito de Recife por duas vezes. Do tio e do pai, João, médico pneumologista respeitado e muito sério, herdou também a excentricidade, a exuberância de pensamentos e modos, que, ainda na transição entre a adolescência e a idade adulta, quando isto é natural, porque, na suposição de termos já alcançado a sabedoria, pensamos que nosso julgamento é definitivo, e a verdade individual é o produto sólido da alma, moldou a personalidade misantrópica. Daí que, para o amor, porque o misantropo se afasta de tudo, mas o amor a ninguém perdoa ou esquece, era um platônico. E, eu o afirmo sem tê-las conhecido, deve ter tido muitas mulheres enevoando-lhe a alma e inspirando-lhe os versos. Eis que era poeta de mão cheia, não desses poetas clássicos, de alexandrinos, mas de poesia em prosa, embora, no começo – então eu o conhecia bem, e andávamos juntos, e estudávamos juntos, ele desprezava o que não fosse literatura, odiava o curso de Direito, preferindo História, e manifestava sempre, com ironia, aversão pela lei e pela gravata –, ele tivesse uma prosa opressiva, que refletia bem a desafeição pelo homem. Dele, disse Ariano Suassuna na orelha do seu primeiro livro, Casa do Eterno (Livros do Mundo Inteiro, RJ, 1973): “Li os seus contos, e como já disse ao autor, fiquei de certa maneiro perplexo, possuído de um sentimento de compaixão, de repulsa, de admiração e de culpa (...) Sim, porque, para ser franco, senti, em seus contos, um mundo de ressentimentos. Eu lia e não deixava de me perguntar, de vez em quando: – O que foi que a vida e o mundo fizeram com esse rapaz para ele se sentir assim, com uma raiva tão sacrílega de Deus e da humanidade?” Nunca soube a resposta. Tanto desapreço escondia, porém, amor profundo e preocupação com a humanidade, como acontece com os grandes poetas, cujos versos desdenhando significam afeição subterrânea, daí surgindo a beleza inexcedível da poesia. Dele guardo, para sempre, o sentimento expresso na dedicatória de Reunião, de Drummond, que me presenteou no aniversário: “Ao Joca, com as afetividades de todos os diminutivos”. Meu querido amigo de juventude, Eduardo Augusto Carneiro de Lucena, nascido em 24/4/1955, partiu para sempre em 24/6/2019. Esvaneceu. Edaduas. Esnacsed me zap, an aiseop.

l João Humberto Martorelli é advogado