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Destaques

Os despojos

Os presentes que sobraram da última ceia ficaram guardados durante todo o ano, reincorporados agora ao pé da árvore, ela também parecendo ter sobrado do ano passado, reerguendo-se para o misterioso nascimento anual, a árvore eterna, com bolas coloridas, adornos os mais variados, laços de fita, anjos pequeninos, e com a estrela, Estela que encanta, brilha e domina, a lembrar a existência do ser superior, qualquer brilho é melhor do que a sombra dos desencantos do ano.

Os familiares e amigos que faltaram e deixaram as sobras de presentes, que sabem eles da ausência dos antepassados, dos pais, avós, tios, cujas vozes ainda ecoam nos quatro cantos da sala de jantar, e cuja memória é sólida argamassa desrespeitada com a ausência? Não era indiferente estarem ali ou não, na ceia natalina, mesmo com um compromisso de última hora, uma doença, na verdade, faltaram ao grande encontro anual porque o desentendimento se instalara em razão das desavenças políticas entre os integrantes da mesma família, do mesmo círculo de amigos, fruto das últimas eleições, desesperados cidadãos desencantados, pensavam, entre si, quando, na verdade, refletiam a dor da descrença na humanidade.

Porque, há algum tempo, não mais se propagam os sentimentos de solidariedade, tolerância, afeto e fraternidade que predominavam do início do século para cá. A população cresceu e os homens ficaram perplexos com as vísceras mostradas assim, os desvios religiosos, a direção à direita, o sobressalto do nazismo, a ideologia da violência, a revolta contra a cultura que absolve e engrandece, o mundo parecia globalizar-se rumo à igualdade, enquanto o ovo da serpente germinava, deitando ódio sobre os desafetos. Os divergentes se encontraram na mesma família, se não odiando uns aos outros, odiando as ideias um do outro. Da ultima ceia para cá, por efeito do vaticínio malthusiano, a Europa se partiu, os húngaros expulsaram a universidade, os refugiados procuraram morada em vão, a morte se tornou infantil, a fome invadiu de vez a África, a socialdemocracia deixou de ser solução, a Amazônia incendiou-se, o espaço se tornou pequeno para um mundo tão grande. Oh, ideal cristão, por que nos abandonaste?

Restarão apenas os despojos, a esperança de que os faltantes à última ceia agora virão, levarão dois presentes, o verdadeiro afeto é aquele que se renova, e que perdoa? Sim, talvez. Feliz Natal, caro leitor! Possamos voltar ao mundo de antes, sob a mesma árvore.

João Humberto Martorelli é advogado