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Destaques

Os loucos

JOÃO HUMBERTO MARTORELLI

Karl Popper preconiza a adoção do princípio da racionalidade na análise dos eventos sociais. Esses eventos devem ser abordados a partir de modelos movidos pelo princípio da racionalidade, encarado a partir da inadequação (e não da adequação) dos atos dos sujeitos que protagonizam o evento social. Ele cita a conhecida frase de Churchill em The World Crisis, segundo a qual as guerras não são vencidas, mas apenas perdidas – na verdade, são concursos de incompetência. A frase de Churchill revela que a maioria dos comandantes das guerras não está à altura da sua tarefa, não percebe a situação como é, de modo que seus atos não podem ser vistos como adequados à situação, tal como eles a veem. Então, para compreender os atos que compõem o evento social em análise, atos inadequados, temos que adotar uma perspectiva maior do que os sujeitos (os comandantes), analisando a situação como eles a viam, ou seja, de modo compatível com a sua visão inadequada da estrutura situacional. Prossegue Popper, sempre que procuramos compreender um ato, inclusive de um louco, usamos o princípio da racionalidade até o limite, tentamos explicar os atos do louco por seus objetivos e informações com base nas quais ele age e que podem ser obsessões, teorias falsas, inclusive sobre falsas notícias, ou fake news, e aqui não é Popper, mas já voltando a ele, as ações de um louco devem ser explicadas a partir do conhecimento mais amplo da situação que nós temos, a qual inclui a visão mais estreita que ele tem da sua situação: compreender seus atos significa ver a adequação deles segundo sua visão – loucamente equivocada – da situação problemática. A teoria acima, pobre e brevemente resumida, consiste em hábil artifício para enfrentarmos com rigor científico os surpreendentes movimentos institucionais do país. Nos últimos tempos, parece que as autoridades públicas, em todas as esferas de competência, estão nadando em mares de inadequação, e comandando guerras com artefatos e táticas imprestáveis, deixando-nos a todos perplexos. Essa perplexidade, não a vinha conseguindo eu superar em momento algum, tamanha a confusão instalada, sem a menor perspectiva de solução. Agora vejo com mais clareza, está explicado. Temos que ver as coisas sob a perspectiva inadequada dos loucos. Claro, para consertar quando der, nos limites da lei, mandando-os todos para o hospício.

l João Humberto Martorelli é advogado

Fonte: Jornal do Commercio