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Os pescadores

A coluna, civilizadamente, congratula-se com o candidato vencedor das eleições presidenciais e seus seguidores. Democracia é assim, há que se ter urbanidade, embora nenhum dos dois candidatos tenha sido cortês: o capitão, de quem se esperava acenos para pacificar a sociedade, tripudiou; Haddad, que poderia ter emergido das urnas maior que o PT, devaneou com a injustiça da prisão de Lula e a decisão da ONU, rumo ao esquecimento.

De qualquer forma, é preciso ter em conta que os pensamentos políticos no Brasil, como na maior parte do resto do mundo, são cíclicos, diria até pendulares: de um lado, à falta de rótulos mais cirúrgicos, a direita com a preocupação especial na economia, em detrimento dos direitos individuais e sociais; de outro, a esquerda com a preocupação central nos direitos individuais e sociais, a economia em segundo plano. Ao sabor de cada eleição, flutua a massa que não quer saber de ideologia, refém do tema da ocasião: com Juscelino, o desenvolvimento, 50 anos em 5; com Jânio, a corrupção (olha ela já aí), as vassouradas; na ditadura militar, não houve eleições presidenciais, mas houve muita corrupção: casos Lutfalla, Coroa-Brastel, Capemi, Delfin, Ponte Rio-Niterói, Transamazônica (o imbatível Andreazza), não foi durante a ditadura que as empreiteiras abriram suas pétalas? Sem falar no japonês da Petrobrás, lembram-se dele? Não estou espantado de os militares estarem ávidos por poder na infraestrutura e na Petrobrás no governo Bolsonaro, já vi esse filme; depois, teve Sarney (dispensa comentários), Collor e a caça aos marajás (olha a corrupção de
novo), os anões do orçamento, e aí uma pequena mudança com o tema da inflação que deu a vitória a FHC, depois a ética (ou a corrupção mesmo, pois FHC se desmoralizou também com diversos escândalos: Sivam, precatórios, compra de votos para reeleição, Geraldo Brindeiro etc); e, por último, de novo, a corrupção do PT, enfim, estamos vivendo variações do mesmo tema há mais de 50 anos. 

Claro, qualquer que seja o lado vencedor, há sempre que renovar as esperanças, torcer pelo Brasil, sem descuidar da proteção aos vulneráveis, dos direitos e garantias fundamentais, e da reza, muita reza. Sim, os pescadores devem tomar cuidado ao escurecer, nunca descansar a vara ao ombro, pode parecer um fuzil, e aí serão abatidos sumariamente.

- João Humberto Martorelli é advogado