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Sobre o zap

Pois então: abri o celular e vi aquela mensagem íntima, “Opa, tudo bem? Preciso falar contigo”, e não era de meus contatos, muito menos de amigo, só aparecia o número e a foto, um sujeito de rosto redondo, dentes alvíssimos, brilhantes, maiores ainda do que o rosto, cabelo escovado à brilhantina, e um sorriso largo, claramente cínico, a foto dominando a tela do meu telefone como se fosse me devorar com aqueles dentes enormes. A sensação é a mesma de, ao fazer a caminhada no calçadão, ser instado por um repentino “Psiu! Tem horas?”, às vezes é pior, “Ei, tem hora?”, e quando você não atende, porque não existe coisa mais deseducada, o sujeito o persegue e toca seu braço, as costas, enfim, o mal educado é você que não responde, continua andando com o olhar fixo no horizonte, mas muitas vezes fica tão desagradável, que o melhor é dar a informação. No WhatsApp, não, até tem isto de bom, pelo menos: dá tempo para escolher o melhor palavrão de retorno, ou para a mais rápida, sutil, educada e maior revanche daquela invasão de privacidade, apagar e bloquear. Tão chato quanto o sujeito desconhecido é aquele conhecido que tem preguiça de ligar ou quer economizar às custas do besta: “Preciso falar contigo, me liga”, ora, vá planta batatas, é abuso. Outra situação incômoda no WhatsApp é a do interlocutor a discutir um assunto complexo por mensagens, seja curta ou longa, e as longas são as piores, as pessoas se danam a explicar as coisas por zap, impressiona a habilidade e a paciência dos dedos naquela plataforma mínima do telefone, o fato é que a matéria digitada não se resolve sem uma conversa minuciosa, em que se explorem os vários aspectos da questão, as ponderações, as dúvidas, e você diz, espera, vou te ligar, mas o interlocutor não consegue esperar dez minutos. Isso já acontecia um pouco com o e-mail, as pessoas, pensando esgotar a matéria ou dar a informação com o simples toque, não entendiam que o importante é a qualidade da informação, nisso compreendendo-se a percepção da pessoa receptora. E tantas coisas a gente só consegue entender com a entonação da voz, a rusga na testa, o gesto, o sorriso, a cara feia, intrigada, o brilho do olhar da pessoa amada. Saudosismo? Deslocado? Ultrapassado? Sei que não há mais brilho presencial, interação física, trocas planejadas ou fortuitas, tanta é a falta de humanidade, que as pessoas se entristecem ao desligar o celular. Suicidam-se.

João Humberto Martorelli é advogado.

Fonte: Jornal do Commercio.