20 anos da lei Maria da Penha: Entre a letra da lei e a brutalidade dos fatos

Lei Maria da Penha completa 20 anos, mas violência contra a mulher segue em alta. Mesmo robusta, a lei precisa de cultura, educação e justiça para surtir efeito.

Neste mês de agosto, a lei Maria da Penha completa 20 anos, é marco civilizatório e a terceira melhor legislação do mundo no combate à violência de gênero, segundo a ONU. Um avanço inquestionável. Contudo, a realidade exposta pelos números e pelos fatos cotidianos nos força a questionar: por que, mesmo com uma lei tão robusta, a violência não cessa?

O último relatório “Visível e Invisível”, divulgado em março de 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é um soco: a violência contra a mulher atingiu seu maior patamar. Essa estatística alarmante ganha rosto e corpo em casos como o de Natal/RN, onde uma mulher foi agredida com 61 socos pelo namorado dentro de um elevador. Aqueles segundos de brutalidade, flagrados por uma câmera, não são um ato isolado. São o ápice de um ciclo que, invariavelmente, começa muito antes, com a violência psicológica.

A ofensa, a humilhação, o controle e a manipulação são o alicerce sobre o qual a violência física é construída. A mulher é levada a crer que “com jeito” pode mudar o agressor, que deve lutar para “salvar” a relação. Essa crença, uma verdadeira síndrome de mulher-maravilha, apenas adia o inevitável e alimenta a escalada da agressão. Quando a violência psicológica, já tipificada como crime, é tolerada, abre-se a porta para o feminicídio.

E quando a vítima ousa romper o ciclo, a violência sofre uma perversa metástase: ela deixa o ambiente doméstico para invadir o próprio sistema de justiça. É o que chamamos de violência processual. Mesmo após se livrar do parceiro, a mulher vê a agressão se perpetuar através dos filhos, com acusações infundadas de alienação parental e petições intermináveis nas varas de família. A ousadia de agressores parece não ter limites, como no caso recente em um júri em Pernambuco, onde um réu por feminicídio ameaçou a irmã da vítima de morte, tudo isso diante de juiz, jurados e promotor, convertendo o espaço de proteção em mais um instrumento de violência.

Esses episódios nos mostram que a lei sozinha não basta. Falar sobre violência doméstica é, em essência, falar sobre como nossa sociedade resolve conflitos. E não se resolve um problema tão profundo sem questionar a educação que recebemos. Precisamos abandonar a premissa de que uma família deve ser mantida a todo custo. Família é onde há felicidade, respeito e apoio. Qualquer coisa fora disso é um arranjo tóxico.

Próxima de completar duas décadas, a lei Maria da Penha é um instrumento potentíssimo. Mas ela não opera no vácuo. Enquanto não entendermos que a violência não escolhe classe, cor ou escolaridade e que o primeiro grito é o mais importante, continuaremos a enxugar gelo. A proteção efetiva das mulheres brasileiras depende de uma transformação cultural que sufoque a violência em sua origem: na mente, nas palavras e no silêncio que a permite crescer.

Por Caroline Bessa

Autor

Uma resposta

  1. I do not know whether it’s just me or if everybody else experiencing problems with your
    site. It looks like some of the written text
    in your content are running off the screen. Can someone else please provide feedback and let
    me know if this is happening to them too? This may be a problem with my internet browser
    because I’ve had this happen previously. Many thanks

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Veja também: