A discussão sobre inteligência artificial na advocacia já passou da fase da curiosidade.

Hoje, o ponto central não é mais saber se a IA será incorporada à rotina jurídica, mas como ela será incorporada. E essa diferença importa muito.

Li recentemente um artigo que trata a fluência em inteligência artificial como uma nova competência competitiva para advogados.

Concordo com esse diagnóstico, mas acrescentaria um cuidado: a vantagem não estará apenas com quem usa IA, e sim com quem consegue integrá-la a fluxos jurídicos consistentes, revisáveis e alinhados à estratégia do escritório.

Na prática, usar tecnologia sem método pode apenas deslocar o problema. Um advogado produz mais rápido, outro precisa revisar tudo com desconfiança, um terceiro refaz o trabalho porque a entrega perdeu densidade técnica ou identidade profissional.

O ganho de tempo, nesse caso, vira retrabalho.

Por isso, tenho visto a inteligência artificial como uma questão de governança, e não apenas de produtividade.

Na advocacia, não basta acelerar a leitura de documentos, organizar informações ou comparar versões contratuais.

É preciso saber quais dados importam, como eles serão classificados, que tipo de risco precisam revelar e de que forma essa informação ajudará uma decisão jurídica ou empresarial.

Esse é o ponto que mais me interessa nesse debate.

A IA realmente pode ampliar a capacidade de atendimento, reduzir tarefas repetitivas e melhorar a rotina das equipes.

Mas, para isso, ela precisa estar inserida em uma arquitetura segura de trabalho, com supervisão humana, critérios de revisão e preservação da assinatura técnica da banca.

A advocacia competitiva não será a que simplesmente terceiriza etapas para uma ferramenta. Será a que consegue transformar tecnologia em inteligência aplicada ao caso concreto, ao contrato, ao contencioso, à operação e à estratégia do cliente.

É nesse caminho que as plataformas jurídicas começam a ganhar relevância.

Não como substitutas do raciocínio jurídico, mas como estruturas capazes de organizar grandes volumes de informação, gerar indicadores, reduzir assimetrias internas e permitir decisões mais rápidas, consistentes e bem fundamentadas.

Por Dóris Castelo Branco, sócia de Martorelli Advogados

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