As empresas passaram anos tentando organizar contratos. Agora começam a entender que os contratos formam uma das maiores bases de dados do negócio.
A discussão sobre IA na gestão de contratos começou pela eficiência, o que faz sentido. Redução de tempo de revisão, automação de fluxos, elaboração de minutas, gestão de aprovações e acompanhamento de prazos são ganhos concretos e mensuráveis.
Segundo levantamento da Deloitte realizado em parceria com a Docusign, 87% das empresas brasileiras já utilizam IA na gestão de contratos, com ganhos médios de 36% em eficiência operacional e redução equivalente de custos.
A eficiência, porém, é apenas o primeiro capítulo.
Por anos, os contratos foram tratados como consequência das decisões de negócio. A empresa decidia; o contrato registrava. O documento formalizava a relação, distribuía responsabilidades e organizava riscos. Com essa função, os contratos acumularam muito mais informação do que o jurídico costumava extrair deles.
Eles registram padrões de negociação, níveis de exposição a risco, exceções comerciais, critérios de aprovação, concentração de fornecedores, compromissos financeiros, obrigações regulatórias e desvios em relação aos modelos da companhia. Poucas bases corporativas conseguem contar a história operacional de uma organização com esse nível de detalhe.
A informação já estava ali. A limitação estava na capacidade de leitura.
A leitura de milhares de contratos para identificar padrões sempre foi lenta, cara e incompatível com a velocidade dos negócios. Por isso, grande parte das empresas limitou a gestão contratual ao armazenamento de documentos, ao controle de vencimentos e ao atendimento de demandas específicas.
Com a IA, torna-se viável analisar carteiras inteiras e transformar documentos dispersos em indicadores gerenciais. A Deloitte aponta que a próxima fronteira será a geração de inteligência a partir de contratos já assinados. Ainda assim, 61% das empresas globais continuam realizando esse trabalho manualmente.
O dado revela uma contradição. A tecnologia avançou mais rápido do que a capacidade das organizações de definir o que querem enxergar.
A ferramenta consegue localizar cláusulas, identificar desvios, mapear vencimentos e comparar documentos. Mesmo assim, ela não determina quais riscos devem ser acompanhados, quais exceções exigem atenção ou quais padrões influenciam a estratégia da empresa. Essa definição depende de critério humano e governança.
A discussão mais estratégica da gestão contratual não se encerra na automação. Ela começa quando a empresa decide quais informações nos contratos devem orientar decisões de negócio.
O jurídico precisa participar dessa definição. Cabe a ele transformar a linguagem contratual em critérios capazes de orientar a leitura e apoiar a decisão.
Quando esse processo é estruturado, contratos alimentam uma fonte permanente de inteligência empresarial.
Por Luciana Martins, sócia de Martorelli Advogados