A sensibilidade humana é a tecnologia de maior resolução que eu conheço.

Com mais de quatro décadas de atuação no mercado, vi muitas “ondas definitivas” passarem.

Minha trajetória não é linear: passei quase vinte anos na linha de frente comercial de multinacionais de tecnologia e marketing antes de, aos 36 anos, decidir que serviria meus clientes também através do Direito.

Muitos chamariam isso de “pivotar”. Eu chamo de expansão de repertório. Essa bagagem comercial me ensinou, muito antes do diploma, que o jurídico não pode ser um centro de custo isolado, mas sim uma alavanca de ROI.

Minha advocacia nunca foi sobre códigos frios; sempre foi sobre o retorno que a estratégia certa traz para o negócio do cliente.

Hoje, a onda é a Inteligência Artificial. A pergunta que ecoa nos comitês e departamentos jurídicos é quase existencial: “O que sobrará para o humano?”.

Recentemente, ao debater sobre a litigância nômade — esse fenômeno que drena recursos e fere a segurança jurídica —, ouvi que só a tecnologia poderia combatê-la.

Minha resposta foi imediata: a tecnologia detecta o rastro, mas quem escala o resultado e resolve o conflito é o contato humano.

A IA é extraordinária para processar o volume, mas ela é daltônica para a sutileza.

O resultado real, aquele que altera o ponteiro do balanço de uma empresa, nasce no despacho estratégico com o magistrado, na colaboração entre as partes e na capacidade de traduzir a jornada do cliente para quem decide.

Isso exige uma sensibilidade que não é uma “soft skill” menor ou uma fraqueza, como o senso comum tenta pregar.

Pelo contrário, a sensibilidade é um sistema avançado de detecção de padrões. É ela que nos permite o “sensemaking” estratégico para dar sentido ao caos de dados que a tecnologia entrega.

É o que nos dá discernimento ético para entender não apenas o que é legal, mas o que é oportuno e íntegro para a marca.

É a inteligência relacional que percebe o que não foi dito em uma mesa de negociação, permitindo uma resolução criativa que a máquina, por definição, não alcança.

Para um CEO ou um Diretor Jurídico, a eficiência da máquina é obrigatória, mas o pensamento crítico do humano é o que define a vitória.

A tecnologia é o motor, mas a sensibilidade humana é o GPS que garante que não chegaremos rápido ao lugar errado.

Não estamos sendo substituídos; estamos sendo convidados a abandonar o mecânico para finalmente exercer o que temos de mais valioso: a nossa capacidade de compreender antes de decidir.

Minha experiência me diz que, quanto mais digital o mundo se torna, mais “premium” vira o toque humano.

Por Socorro Maia Gomes, Sócia de Martorelli Advogados

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