Amizades profissionais também constroem carreira

Por muito tempo, fomos ensinados a separar afeto e trabalho como se essa distância fosse sinal de maturidade profissional. No Direito, talvez isso apareça ainda com mais força.

A técnica, a confidencialidade, a pressão por resultado e a formalidade da profissão muitas vezes criam a impressão de que vínculos pessoais precisam ficar do lado de fora.

Um artigo recente da Harvard Business Review, assinado por Paul Ingram, parte de uma provocação simples e necessária.

O texto afirma que “a maioria das pessoas tenta manter trabalho e amizade em caixas separadas”. A frase me chamou atenção porque traduz uma prática comum, mas nem sempre saudável.

Muitos profissionais tentam manter relações de trabalho em uma zona neutra, sem envolvimento, sem abertura e sem espaço para confiança além do necessário. Só que essa separação, na prática, empobrece a experiência profissional.

Não defendo a confusão entre amizade e falta de critério. Relações profissionais exigem responsabilidade, limites e clareza.

Mas existe uma diferença grande entre preservar a ética e transformar o ambiente de trabalho em um espaço frio, onde ninguém se conhece de verdade e todos operam apenas a partir de entregas, prazos e funções.

Na advocacia, aprendi que confiança não nasce apenas da competência técnica, sabe?

Ela acaba se construindo na convivência, na escuta, na forma como uma pessoa sustenta outra em períodos difíceis e na segurança de poder compartilhar dúvidas sem receio de parecer menor.

Bons vínculos não eliminam a exigência do trabalho. Ao contrário, tornam essa exigência mais possível, porque reduzem o isolamento que tantas vezes acompanha carreiras de alta responsabilidade.

A solidão profissional raramente aparece nos currículos, nos contratos ou nas reuniões de resultado. Ainda assim, ela está presente.

Por isso, amizades profissionais não são um detalhe afetivo. Elas fazem parte da arquitetura de uma carreira sustentável.

São vínculos que ajudam a elaborar frustrações, amadurecer decisões, atravessar conflitos e permanecer em movimento sem perder a dimensão humana do trabalho.

Talvez a grande questão não seja escolher entre profissionalismo e amizade. O desafio é construir ambientes em que a proximidade não comprometa a responsabilidade, e a responsabilidade não exija indiferença.

As carreiras não são feitas apenas de cargos, clientes, teses e resultados. Também são feitas das pessoas que nos ajudam a permanecer inteiros enquanto trabalhamos.

Por Dóris Castelo Branco, sócia de Martorelli Advogados

Autor

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Veja também: