Já falei por aqui algumas vezes sobre o poder da Inteligência Artificial na advocacia.
Acredito no uso dessas ferramentas, estudo o tema com atenção e vejo, na prática, como elas podem melhorar fluxos, apoiar decisões e liberar tempo para o que exige análise jurídica de verdade.
Mas também tenho insistido em um ponto: nada disso faz sentido se, no caminho, perdermos aquilo que sustenta a nossa profissão. Escuta, responsabilidade, confiança e presença continuam sendo parte essencial da advocacia.
Foi com essa percepção que participei do C Law Experience | 26, 27 e 28 de Maio SP.
A IA atravessou praticamente todas as conversas, da governança ao letramento digital, da transformação dos departamentos jurídicos às visões de futuro compartilhadas pelo Ministro Luís Roberto Barroso.
Saí do evento com sentimentos misturados.
Em alguns momentos, senti ansiedade. O ritmo é intenso. O que aprendemos hoje parece precisar ser revisto amanhã.
Também me chamou atenção a discussão sobre o possível encolhimento do espaço para advogados juniores. Essa preocupação é concreta. Como formar bons profissionais se retirarmos deles a vivência da base?
A senioridade não nasce pronta. Ela se forma no contato com o caso, na revisão, no erro corrigido, na escuta do cliente e no cotidiano do chamado “chão de fábrica” jurídico.
Ao mesmo tempo, lembrei da minha própria trajetória. Vi a advocacia passar pela máquina de escrever, pelo computador, pelo fax, pelo celular, pelos sistemas eletrônicos e por tantas outras viradas.
O trabalho jurídico não acabou em nenhuma delas. Ele foi se adaptando. Agora, talvez, a diferença esteja na velocidade. Nunca fomos tão pressionados a aprender tão rápido.
Esse ponto apareceu em uma mesa redonda com diretores jurídicos: até que ponto conseguimos acompanhar esse ritmo sem perder o que nos torna humanos?
Também ouvi relatos de grandes empresas em que o uso de agentes de IA já é obrigatório e monitorado, inclusive por consumo de tokens.
Isso mostra que o debate deixou de ser tendência. Já entrou na operação. Por isso, o letramento digital precisa chegar às universidades, aos escritórios, aos departamentos jurídicos e à sociedade de forma mais ampla.
A ferramenta precisa servir ao nosso trabalho. Não o contrário.
No evento, a referência à Encíclica do Papa Francisco sobre IA também me marcou. Ela lembra que existe responsabilidade no caminho que estamos construindo.
Ao final, gravei um vídeo com a conclusão que mais fez sentido para mim: nada substitui o estar junto.
Mais do que dominar ferramentas, agentes ou métricas, precisamos atravessar essa fase em parceria. Escritórios, clientes, equipes e instituições terão que aprender juntos, testar juntos e decidir juntos quais limites não podem ser perdidos.
A IA processa dados. Mas continuam sendo as pessoas, em parceria e confiança, que constroem o futuro.
Por Socorro Maia Gomes, sócia de Martorelli Advogados