O Poder Judiciário brasileiro iniciou 2026 com aproximadamente 75 milhões de processos pendentes, o menor estoque registrado nos últimos seis anos. Ainda assim, o volume de litigiosidade permanece elevado e não permite afirmar que houve uma redução estrutural da judicialização no país. Parte dessa redução decorre, inclusive, de medidas pontuais de racionalização de execuções fiscais e de gestão de acervos processuais.
Esse cenário convida a uma análise mais aprofundada sobre a evolução do contencioso de massa no Brasil. A explicação tradicional baseada na chamada “cultura da litigiosidade” já não é suficiente para compreender as dinâmicas atuais.
Hoje, a transformação desse ambiente passa por três vetores principais: capital, governança e inteligência de dados.
Capital: novas estruturas de financiamento e gestão
O contencioso de massa deixou de ser apenas um problema operacional para departamentos jurídicos e passou a ser tratado também como uma questão estratégica e financeira.
Empresas e instituições têm buscado soluções que permitam maior previsibilidade de custos e resultados, incluindo estruturas de financiamento de litígios, reorganização de carteiras e modelos mais sofisticados de gestão do passivo judicial.
Essa perspectiva aproxima o contencioso da lógica de gestão de ativos, exigindo análises cada vez mais estruturadas sobre risco, retorno e impacto financeiro das disputas judiciais.
Governança: estratégia e controle na gestão de litígios
Outro vetor de transformação é a evolução dos mecanismos de governança aplicados ao contencioso de massa.
A gestão de litígios repetitivos exige integração entre diferentes áreas da empresa: jurídica, financeira, compliance e tecnologia, além da definição clara de indicadores de desempenho, políticas de acordo e estratégias preventivas.
Nesse contexto, o contencioso deixa de ser apenas reativo e passa a ser gerido de forma estratégica, com foco em redução de riscos, eficiência operacional e alinhamento com os objetivos de negócio.
Inteligência de dados: o papel da tecnologia
O terceiro vetor de transformação é o avanço da análise de dados e da inteligência artificial aplicada ao direito.
Ferramentas de jurimetria, analytics e automação permitem identificar padrões de litigiosidade, prever resultados processuais e orientar decisões mais assertivas sobre acordos, recursos e estratégias jurídicas.
Essa abordagem transforma grandes volumes de informações processuais em inteligência aplicada, capaz de orientar tanto a gestão do contencioso quanto a prevenção de novas demandas.
Uma nova abordagem para o contencioso de massa
A combinação entre capital, governança e inteligência de dados indica que o contencioso de massa está passando por uma mudança estrutural.
Mais do que administrar volumes elevados de processos, organizações e escritórios de advocacia precisam desenvolver modelos de gestão integrados, baseados em tecnologia, estratégia e análise de dados.
Essa transformação aponta para uma advocacia cada vez mais orientada por eficiência, previsibilidade e geração de valor, tanto para clientes quanto para o próprio sistema de justiça.
Luciana Martins – Sócia de Expansão e Inovação
Artigo originalmente publicado no portal Migalhas.