No mercado jurídico, crescer virou quase uma obrigação. A cada ano, novas áreas surgem, demandas aumentam e a pressão por expansão parece constante. Mas há uma diferença importante, e muitas vezes ignorada, entre crescer de forma sustentável e simplesmente aumentar de tamanho.
Os dados mais recentes ajudam a ilustrar esse cenário. Segundo dados da Ordem dos Advogados do Brasil, o país segue ampliando a sua estrutura jurídica: o número de advogados continua crescendo entre 0,8% e 1,5% ao ano, o que pode levar o país a algo entre 1,45 e 1,55 milhão de profissionais ativos até o fim da década.
Esse crescimento, no entanto, esconde uma fragilidade, pois há mais oferta do que diferenciação real. Globalmente, são mais de 18.500 firmas atuando no segmento corporativo, com crescimento impulsionado por áreas como compliance, tecnologia e operações societárias. À primeira vista, o cenário parece positivo, mas basta olhar com mais atenção para perceber que nem todo crescimento representa evolução.
Na prática, muitos escritórios estão crescendo “para fora”, e não “para dentro”. Ou seja: aumentam o número de advogados, abrem novas frentes de atuação e captam mais clientes, mas sem o mesmo avanço em gestão, eficiência ou posicionamento estratégico. Com isso, o resultado costuma ser previsível, com estruturas mais caras, margens pressionadas e uma operação cada vez mais difícil de controlar.
Esse tipo de crescimento, baseado sobretudo em volume, revela uma lógica ainda muito presente no setor jurídico, refletindo a ideia errônea de que tamanho é sinônimo de sucesso. Não é e, em muitos casos, pode ser justamente o contrário, pois escritórios que crescem sem estratégia acabam criando organizações inchadas, dependentes de poucos sócios-chave e com dificuldade de manter a consistência na entrega.
Por outro lado, os escritórios que evoluem de forma sustentável seguem um caminho menos visível, mas muito mais sólido. Eles entendem que crescer não é apenas expandir, mas sim ganhar escala com eficiência, e isso começa por decisões estratégicas claras como saber em que mercado atuar, quais áreas desenvolver e, principalmente, que tipo de cliente querem atender.
Esse movimento é cada vez mais relevante em um ambiente em que o próprio perfil da demanda jurídica está mudando. Áreas como proteção de dados, ESG e governança corporativa não apenas cresceram, mas passaram a exigir um nível maior de especialização e capacidade consultiva. Escritórios que se antecipam a essas transformações conseguem crescer com consistência e os demais tendem apenas a reagir, quase sempre tarde demais.
Outro ponto que escancara essa diferença é o uso de tecnologia. Enquanto alguns escritórios ainda crescem contratando mais pessoas para dar conta do volume, outros investem em automação, inteligência artificial e gestão de processos.
Hoje, uma parcela significativa das bancas já utiliza tecnologia para tarefas como revisão de documentos, o que reduz, consideravelmente, o tempo e aumenta a produtividade. Isso muda completamente o jogo, já que não se trata mais de fazer mais com mais gente, mas de fazer melhor com estruturas mais inteligentes.
Há também uma mudança importante na forma como os clientes escolhem os seus escritórios, levando-se em consideração que a experiência do cliente deixou de ser um diferencial e passou a ser uma exigência nos dias de hoje. Transparência, previsibilidade de custos, comunicação clara e capacidade de antecipar problemas são fatores cada vez mais valorizados.
Sendo assim, escritórios que crescem de forma sustentável colocam o cliente no centro da estratégia. Já aqueles focados apenas em volume tendem a oferecer um serviço mais padronizado, com menor valor percebido. Crescer de forma sustentável, nesse contexto, significa estar mais próximo do cliente e não apenas maior.
Mas talvez o fator mais decisivo — e o menos discutido — seja interno. Crescimento sustentável exige governança, alinhamento e cultura organizacional. Sem isso, qualquer expansão vira um risco e conflitos entre sócios, critérios pouco claros de promoção e ausência de direção estratégica são problemas comuns em escritórios que cresceram rápido demais. Nesse viés, é inegável que, quase sempre, são esses fatores que limitam o crescimento no médio e longo prazo.
No fim das contas, o mercado jurídico atual deixa uma mensagem bastante objetiva, onde crescer continua sendo importante, mas não da forma como sempre foi feito. Não basta aumentar o número de clientes ou de advogados. É preciso construir um modelo que sustente esse crescimento ao longo do tempo ou, caso contrário, o que parece expansão pode ser apenas acúmulo e, eventualmente, desgaste.
Crescer, hoje, é menos sobre escala e mais sobre inteligência. O tamanho, por si só, já não garante relevância. Em um ambiente mais competitivo, tecnológico e saturado, a diferença entre evoluir e apenas inchar está na capacidade de combinar estratégia, eficiência e posicionamento, e isso poucos ainda fazem.