Esse dado foi apresentado em uma pesquisa realizada pelo World Economic Forum e retomado em um artigo recente da Harvard Business Review, escrito por AMY C. Edmondson e Dr Tomas Chamorro-Premuzic.
No artigo, os autores falam sobre a automação de tarefas realizadas por profissionais em início de carreira.
Embora a discussão sobre a “morte” dos empregos de entrada em razão da implementação de IA não seja nova, quero propor outra perspectiva sobre o assunto.
No livro A Organização sem Medo, também da Amy, há um bom ponto para iniciarmos essa conversa.
Com base em pesquisas em neurociência, ela argumenta que o medo compromete o aprendizado porque consome recursos cognitivos essenciais e reduz a capacidade de processar novas informações, de modo que reduzir o medo viabiliza o aprendizado.
Essa perspectiva é importante porque, quando olhamos para os cargos de entrada, precisamos ter em mente que eles servem para o desenvolvimento. É nesse estágio que os primeiros erros acontecem, são tolerados e começam a ser incorporados como repertório profissional.
Então, quando essas funções passam a ser absorvidas por IA, não estamos eliminando apenas tarefas operacionais, estamos reduzindo também o acesso ao primeiro espaço de trabalho onde o custo do erro é baixo.
E é por esse motivo que concordo com o ponto central do artigo: eliminar cargos de entrada como resposta à automação é uma decisão de curto prazo.
Esses cargos são parte essencial do processo de formação de profissionais e, no limite, do desenvolvimento de lideranças.
Ao mesmo tempo, não podemos negar que a adoção de IA já está gerando ganhos relevantes de produtividade, redução de custos e aumento de capacidade técnica.
Ignorar essas vantagens não é uma opção.
Mas é um paradoxo. Ao substituir tarefas de entrada por IA, ganhamos eficiência no curto prazo, mas corremos o risco de fragilizar a formação de profissionais no médio e longo prazo.
Para mim, o mais importante é que essa discussão não fique restrita a manter ou eliminar esses cargos. Precisamos começar a discutir como redesenhá-los.
O que as organizações vão fazer para criar novos espaços de desenvolvimento? Qual será o custo de não redesenhar? O que acontece com o mercado quando a lacuna na formação de hoje se tornar o padrão de liderança de amanhã?
Mas essa lacuna não é só responsabilidade das organizações. As universidades também precisam repensar como preparar os profissionais para o mercado, sobretudo trazendo letramento tecnológico e desenvolvendo nos alunos habilidades para lidar com contextos multidisciplinares.
Cabe também aos próprios estudantes ficarem atentos. Quem chegar ao mercado já adaptado às ferramentas e aberto à multidisciplinaridade vai encontrar muito trabalho pela frente.
Só que diferente.
Por Luciana Amaral, Sócia de Martorelli Advogados