O sistema tributário do futuro será construído sobre redes?

“A fiscalização moderna deve mapear a topologia da rede econômica em que os contribuintes estão inseridos.”

Essa foi uma das provocações que me chamou a atenção em um dos painéis do Congresso Luso-Brasileiro de Auditores Fiscais, realizado entre 1 a 3 de junho,  em Belo Horizonte/MG.

Na apresentação, um especialista português propôs utilizar conceitos da Teoria das Redes com uma lente de análise para compreender a evolução dos sistemas fiscais digitais e os desafios da tributação em uma economia cada vez mais conectada.

Nesse ecossistema, surge a figura do “contribuinte-hub”. Grandes empresas e plataformas digitais operam como nós da cadeia. Elas concentram um volume considerável de dados de fornecedores, clientes e transações. 
O modelo apresentado sugere uma Administração Tributária atuando como um “hub de última instância”, enquanto grandes empresas e plataformas assumiriam funções de validação e pré-processamento de informações fiscais.

Mas até que ponto a eficiência da fiscalização pode ser ampliada sem transferir aos agentes privados responsabilidades cada vez maiores de controle e conformidade?

Essa é uma reflexão importante em um ambiente de tributação orientado por dados e obrigações acessórias digitais.

Em diferentes países, já se observam iniciativas que ampliam a integração de informações fiscais e fortalecem a cooperação entre contribuintes, empresas e administrações tributárias. Esses movimentos sugerem uma tendência de construção de sistemas conectados, nos quais o compartilhamento e a validação de dados passam a ocupar papel central na fiscalização tributária.

Embora o painel tenha focado no cenário europeu, à medida que o Brasil implementa a CBS e o IBS, a discussão sobre tecnologia, circulação automatizada de dados e responsabilidade assume papel expressivo.

Essa transição digital nos impõe desafios, como:

• Centralidade de dados: o compliance fiscal passa a ser uma operação de integração de dados em tempo real.

• Responsabilidade nos hubs: grandes indústrias, cooperativas e plataformas de serviços tendem a fortalecer suas estruturas de governança, tecnologia e compliance, à medida que assumem, em graus variáveis, papel relevante na validação da conformidade de suas esferas econômicas.

Talvez o aspecto mais interessante desse debate seja perceber que a transformação digital da tributação está redefinindo quem produz, valida e compartilha informações dentro do sistema tributário.

Uma das frases de encerramento do painel sintetiza com precisão o tamanho do nosso desafio atual:

“Construir a rede fiscal do século XXI é construir um contrato social tributário adequado à economia digital.”

A transformação que vivemos demanda uma redefinição da relação entre Estado, empresas e informação.

O futuro do direito tributário corporativo está na capacidade de compreender como informação, tecnologia e governança passam a moldar a própria arquitetura da tributação.

Por Andrea Feitosa, Sócia de Martorelli Advogados

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