Parece óbvio, mas é nesse “vazio” entre o documento e a rotina que moram as maiores fragilidades de uma empresa.
Muitos projetos de compliance terminam com um pacote de políticas impecáveis: textos bem escritos, aprovados e arquivados. No papel, a norma existe. Na prática, a operação continua funcionando exatamente como antes.
O que falta?
Muitas vezes, quem deveria aplicar a regra nem sabe que ela existe. Ou, se sabe, não faz ideia de como transformar aquele texto jurídico em ações do dia a dia.
Como comentei no meu post anterior, precisamos parar de ver a norma como uma burocracia imobilizadora. O problema quase nunca é má-fé, mas sim um erro de design:
⭢ Quem escreve a política domina a norma, mas desconhece a rotina de quem a executa
⭢ O resultado é um documento perfeito na técnica, mas inviável na operação
Quando a política ignora como o trabalho de fato acontece, a operação “dá um jeito” de passar por cima dela para bater as metas.
A lição mais importante que aprendi é que antes de redigir qualquer linha, é preciso ouvir a ponta. Isso significa entender:
• Onde estão os gargalos reais?
• Por que certos atalhos existem?
• O que trava quando tentamos seguir o procedimento formal?
Isso exige tempo e presença, o que é algo raro em adequações feitas às pressas para cumprir prazos de certificação.
Acontece que ouvir a operação antes de escrever permite traduzir a regra em passos testados. Ou seja, o que vai funcionar no longo prazo é ajustar a norma ao gargalo que foi identificado na operação, em vez de forçar a operação a caber no texto.
O que quero fixar é que o compliance documental sobrevive à auditoria, mas só o compliance operacional sobrevive à rotina.
Por Flavia Presgrave, Sócia de Martorelli Advogados