Dois resultados, ontem, na mesma rodada eliminatória, me ensinaram a mesma lição por caminhos opostos.
O Brasil venceu, mas a vitória não escondeu o que mais me incomoda, a falta de “liga”. Horas depois, o Paraguai eliminou a Alemanha, e essa partida é o avesso do nosso problema.
A Alemanha entrou favorita ao penta, com um elenco que qualquer recrutador chamaria de “Dream Team”.
Dominou o jogo, teve mais posse de bola, mais talento individual. E perdeu.
O Paraguai, mais modesto, jogou fechado, em bloco, sufocando qualquer brilho isolado alemão com marcação coletiva. Ganhou no que importa quando o talento já não basta, a organização, o sistema.
O Brasil venceu apesar de si mesmo. Temos talentos indiscutíveis, que brilham em clubes da Europa, mas que, vestindo a amarelinha, parecem peças soltas que não se encaixam.
Falta aquele entrosamento que nos fazia encher os olhos. O time mais talentoso caiu fora por falta de liga, o mais modesto avançou por excesso dela.
Como gestora, traço um paralelo com o mundo corporativo. De que adianta reunir um “Dream Team” de mentes brilhantes se elas não jogam juntas?
O talento pode ganhar uma liminar isolada, mas é o entrosamento, aquela conexão invisível que chamamos de “liga”, que sustenta instituições por décadas.
O Paraguai prova que um time bem treinado, com papéis claros e confiança mútua, vence um time de estrelas que não joga como time.
Muitas vezes, nas empresas, comete-se o erro de achar que contratar “estrelas” resolve tudo.
Mas a “liga” nasce de algo além do currículo, da cultura, do treinamento exaustivo, do feedback rotineiro, da generosidade em passar a bola e da vontade de construir relacionamentos sólidos.
Temos ferramentas de sobra, PDIs, feedbacks estruturados, dinâmicas de grupo e até IA analisando colaboradores. Mas a técnica pela técnica é estéril.
A IA processa dados e automatiza a logística de um time, mas nunca terá “liga”. Não sente a vibração de um gol nem replica a química de uma equipe que confia plenamente uma na outra.
O futebol de ontem me faz pensar que valorizamos demais o “eu” e esquecemos o “nós”.
Sem liga, o talento vira estatística, e às vezes, como mostrou o Paraguai, a liga vence o talento sozinho. Precisamos treinar não só a técnica, mas o entrosamento, porque o que nos diferencia das máquinas é sermos um time de verdade.
O valor econômico do futuro não estará só na execução técnica, que as máquinas farão melhor, mas na capacidade humana de gerar emoção e conexão.
É isso que faz o torcedor chorar no estádio e o cliente confiar seu bem mais precioso a um escritório de advocacia, a certeza de que ali existem pessoas que vibram, se importam e jogam juntas.
Por Socorro Maia Gomes, sócia de Martorelli Advogados